À minha frente
vejo uma mesa. Em sua volta uma família feliz. Bebendo, comendo, cantando,
gargalhando. Ao lado da mesa. Vejo restos de alimento. Ao redor dos restos
outra família feliz. Um bando de pombos comendo, grunhindo, brigando, pulando. Olho
pra cima e vejo nuvens. Juntas, unidas como uma família. Felizes. Quase chovendo.
Prestes a despejar sobre mim bilhões de lágrimas de felicidade. À minha frente,
logo abaixo de minha caneta, vejo uma família de linhas sobre um papel branco. Felizes
a receber minhas letras. Estranhas mas verdadeiras. Vejo ainda, sobre minha
cabeça, uma câmera a vigiar cada momento. Cada movimento. Feliz a guardar em
sua memória cada imagem. Cada expressão de vida. Do vento, do pombo, de mim, do
universo. Mais ao lado vejo outra família. Palmeiras felizes. Dançando ao
vento. Soprando com carinho, como só se encontra no litoral, momentos antes de
um temporal. Todos são felizes. Por serem o que são. Como são. Apenas existirem
lhes basta. Comer, sorrir, brincar, brigar, dançar, chover, filmar, soprar. Apenas
ser o que foi feito para ser. Ser na simplicidade. Ser como se deve ser. Ser em
sentimento. Ser também em sofrimento. Como eu mesmo sofro. Como todos sofrem,
por vezes. Ter no sofrimento um fator de equilíbrio. Daquilo que somos junto ao
cosmos. Às forças do universo. Ser como somos. O que somos. Como estamos. Humanos.
Concorrência. Tantos os terreiros e centros de umbanda e candomblé quantos as igrejas neopentecostais se concentram nas periferias e favelas. Elas disputam um mesmo público em um mesmo espaço geográfico. Nas favelas e periferias estão as piores e mais frequentes mazelas. Drogas, violência doméstica, violência do tráfico, violência da polícia, falta de hospitais e escolas decentes. Na favela está concentrado o sofrimento geral que a pobreza causa. E tanto pastores e pastoras quanto pais e mães de santo estão atendendo e consolando essa gente sofrida. Cada uma consola a seu modo. Porém é comum as igrejas neopentecostais declararem ódio e intolerância abertamente contra "macumbeiros" como uma estratégia de manipulação e proveito da ignorância alheia. Um evangélico que mora na favela sempre tem um vizinho macumbeiro. O discurso do medo, do diabo, do feitiço, um pensamento medieval que ainda custa a vida e a honra das pessoas. Um macumbeiro não tem um evangélico como inimigo, a ...
Comentários
Postar um comentário