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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

“Os Mitos” como representações e transmissão do conhecimento

Por Alan Geraldo Myleo

Mito não é verdade. Também não é mentira. É uma representação. Uma forma de interpretar algo. Ou um conto que carrega mensagens, significados, representações de acordo com a cultura, a ética e a visão de mundo de um determinado povo. É necessário estabelecermos um conceito sobre Mitologia. Mito não é invenção, conto mágico. Também não é verdade, não é fato. Mito é uma representação, como já foi dito. É uma passagem com uma moral, com ensinamento sobre determinado assunto. Existe também a perspectiva cultural do mito. As religiões, os Deuses, se tornam mitologia pra quem não faz parte da tradição. O culto aos Orixás não é o culto a personagens mitológicos, assim como não era mitologia o culto a Zeus, para os gregos. Na Grécia Antiga os deuses não eram seres mágicos inventados em caráter literário ou algo parecido. Da mesma forma, o culto aos Orixás enquanto prática religiosa, ainda vive e perpetua-se.

Há muitas coisas em comum entre mitos de diferentes povos. Por exemplo, os mitos da criação. Em quase todos os mitos da criação das diferentes doutrinas religiosas, que encontramos em livros e sites, o homem tem origem do barro. Como “Adão e Eva”, por exemplo. Nesse mesmo mito há o “sopro da vida” dado por Jah para que se animassem as esculturas de barro. Há também a energia vital, o calor humano, o fogo do amor. Todas essas passagens representam uma visão de mundo que simboliza as forças da Natureza. Forças da natureza que tem como base os quatro elementos. O barro é a junção de dois, água e terra. Enquanto o fogo e o ar são relacionados à energia vital, ou o sopro da vida. Não só no mito hebraico, mas na maioria dos mitos existentes os elementos naturais primários são da base da matéria humana.



Muitos povos criaram mitos diferentes para transmitir seus conhecimentos e visão de mundo. Um dos povos que mais se destacaram por seus complexos mitos foi o povo grego. “O Mito da Caverna” é um ótimo exemplo de como os pensadores gregos tratavam do apego apenas àquilo que se conhece, da alienação do ser-humano.
Os mitos Yorubás são a base ideológica e ética do Candomblé. Consistem em uma centena de contos, histórias, passagens da vida dos Orixás, que carregam um vasto conhecimento sobre a essência da religião. Tais passagens, sobre todos os Orixás, contêm ensinamentos sobre as regências de cada um; sobre suas personalidades; sobre suas fraquezas e seus domínios. E a essência desses ensinamentos é reproduzida cotidianamente dentro dos terreiros e barracões.
Muitas vezes os mitos são desacreditados, ou mesmo interpretados como alegorias sem sentido específico aparente. Isso porque as fontes escritas desses mitos são escassas. Mas principalmente porque a essência do mito é o ensinamento. E todo ensinamento tem o momento certo. Nesse ponto a oralidade se sobrepõe sobre o mito escrito. As mais seguras fontes e mitos, ou itans, são os Babalorixás e as Yalorixás. Pessoas que aprenderam ouvindo e ensinam dizendo. O ensinamento a partir dos itans tem seu maior poder pela oralidade, pois é no momento certo que se orienta pela passagem, pela lição de vida que passam tais itans. Para ilustrar tal questão será utilizado um exemplo prático. Na ocasião de um momento difícil, em uma conversa com um orientador espiritual, foi contado o seguinte itan, que será reproduzido da maneira mais fiel possível:
"Quando da criação do mundo, os Orixás se reuniram para organizar as coisas entre os homens, a natureza e tudo o que passaria a permear a existência humana. Depois de tudo posto em seus devidos lugares, segundo o consenso dos Orixás, sob o ministério de Oxalá, sobrou um último e problemático tema: a felicidade. Muito se tinha discutido sobre o assunto. O que fazer? Onde colocar a felicidade para que os seres humanos possuíssem esse sentimento tão importante para eles? Todos opinaram sobre o que fazer com a felicidade. Ogum quis colocar na luta, nas batalhas e conquistas, mas não convenceu a todos e nem a Oxalá. Odé (Oxossi) pensou em depositar a felicidade na fartura, no pão de cada dia, no alimento. Ossãe opinou pelo mistério, pelo segredo das coisas. Em vão. Obaluayê pensou em depositar a felicidade na caridade, na ajuda aos pobres. Na humildade. Oxumarê, então quis optar na transformação. A felicidade nas mudanças. Nanã pensou em depositar na integridade pessoal. Na seriedade. Na honra. Yansã disse que o lugar ideal seria na sinceridade. Que a felicidade mora na verdade, mas não convenceu. Obá colocou como lugar ideal, a dedicação. Ewá propôs a intuição, na boa visão das coisas. Enquanto isso o mais terreno e humano dos Orixás permanecia quieto. Calado. Para a surpresa de todos. Nisso Oxum disse que o melhor lugar seria a maternidade, a fertilidade e junto com isso a riqueza, o ouro. Mas sem sucesso. Então Logun Edé, com sua graciosidade propôs a vaidade, junto com a fartura e a riqueza como o lugar mais apropriado. Então veio o grande rei Xangô. Propôs que a felicidade ficasse na mais bela virtude: a justiça. Mas, de novo, sem sucesso. E veio Yemanjá, com toda sua sabedoria opinou pela família. A felicidade estaria na família. Sem consentimentos. Por fim, Oxalá propôs a paz como moradia da felicidade.
Depois de muita discussão. Avaliações. Discursos de defesa de suas propostas, não chegavam a nenhum consenso. De maneira alguma. Então, depois de muito tempo, notaram que Exú continuava em silêncio. Dirigiram-se a ele e perguntaram.
-Ora. O mais astuto e auspicioso dos Orixás não vai dizer nada?
Então, com uma expressão um tanto quanto sarcástica e irônica, porém com muita sabedoria, Exú disse:
-ora meus caros, todos, com sua grandeza, sabedoria, conhecimento e tantas outras virtudes, propuseram as mais variadas hipóteses, circundando as mais belas e complexas virtudes humanas, mas esqueceram de um lugar. O mais simples. O mais próximo dos seres humanos e que, com certeza, o mais justo dos lugares onde poderá habitar a felicidade: dentro de cada um. Dentro de si. Só quem olhar pra dentro de si mesmo encontrará a verdadeira felicidade. No ori e no ikan, na mente e no coração de cada um deve morar a felicidade. E a partir daí todos os outros lugares propostos anteriormente serão passíveis de serem alcançados. Busque a felicidade dentro de si mesmo. Pois é lá que ela mora.
Tal conto não teria o mesmo efeito se o ouvinte não estivesse em um momento de busca pela felicidade, ou melhor, de conflitos por achar que não conseguia ser feliz.
A ética que permeia o Candomblé é transmitida e ensinada através desses mitos, ao contrário do Cristianismo que estabelece verdades através da Bíblia e suas interpretações, dando ao mito de Adão e Eva a validade de uma verdade absoluta.
No culto aos Orixás os mitos não são verdades absolutas. O Candomblé não defende isso. Não precisa disso. Tais mitos são a fonte de transmissão e compreensão da essência dos Orixás. De seus ensinamentos.
Um problema existente na mitologia dos orixás existente no Brasil é a (con)fusão que ocorre entre as diferentes origens do culto. Os Jejes, Bantos e Yorubás tem mitos diferentes para cada Vodun, Nkisi ou Orixá. Apesar de essas entidades se dialogarem em suas essências são de povos diferentes, portanto tem passagens diferentes. E isso se confunde nos mitos. A cada vez que se conta um itan corre-se o risco de misturar, confundir passagens que tem representações diferentes e origens diferentes. Mas apesar de tudo, sempre que um itan tem um sentido, uma moral ele é importante e válido.




SOBRE ITANS (MITOS) YORUBÁS ver:

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